Os 7 sinais vitais do transporte marítimo

Falar do futuro do transporte marítimo é falar de ontem. Porque o que vai acontecer amanhã, no mundo dos navios e dos portos, há muito está a ser construído. De tudo o que está a ser pensado, testado e validado, seleccionámos e apresentamos 7 sinais vitais, indispensáveis para monitorizar a saúde e longevidade desta indústria.

Os riscos do futuro

Vivemos num mundo em permanente mudança, onde se questionam paradigmas e a disrupção espreita as instituições e cada atividade económica. A inovação tecnológica, associada à disponibilidade de capitais por vias não ligadas à banca convencional, alimentam uma evolução rápida onde a velocidade da indústria ameaça ultrapassar a regulação. De acordo com o relatório “AGCS Safety & Shipping Review 2017”, os riscos do futuro no transporte marítimo podem resumir-se aos seguintes pontos:
– Pressão da regulação (Convenções IMO);
– Pressão económica sobre os armadores (menores margens);
– Situação política em algumas regiões (Yemen e Sul da China);
– Negligência da tripulação e deficiente manutenção;
– Ciberataques;
– Pirataria, assaltos à mão armada e raptos;
– Crescente dimensão dos navios;
– Tecnologia e excesso de confiança na “e-navigation”;
– Navios autónomos.
Vão claramente existir novos riscos e novos modelos para lidar com os mesmos. Os valores monetários associados a sinistros, podem disparar para números nunca antes vistos no transporte marítimo. Dada a dimensão dos navios e as responsabilidades associadas, o cenário “4bn” (4 mil milhões), reflete o montante das indemnizações, numa hipotética colisão de dois navios, um de passageiros (cruzeiros) e outro de transporte de contentores, seguido do encalhe de ambos, e poluição num local ambientalmente sensível, sendo ambos os navios considerados perdas totais construtivas. Não podemos esquecer que existem hoje navios que transportam mais de 6000 passageiros e mais de 2000 tripulantes, com mais de 360 metros de comprimento e 70 de altura. Os navios porta-contentores ultrapassaram já os 400 metros de comprimento e o transporte de mais de 20.000 contentores num só navio.

1º SINAL VITAL – NAVIOS AUTÓNOMOS

Se na maior parte dos fatores de risco do futuro apresentados anteriormente, lidamos com o crescimento ou transformação de fatores antigos, como a regulação, a qualidade das tripulações e as pressões económicas, por exemplo, o que se espera da chegada dos navios autónomos é pura disrupção. Segundo a Rolls-Royce, companhia que trabalha ativamente no desenvolvimento de navios autónomos, o futuro tem já calendário:
– Navio costeiro operado remotamente: 2020
– Navio costeiro sem tripulação (unmanned), com controlo remoto: 2025
– Navio oceânico sem tripulação (unmanned), com controlo remoto: 2030
– Navio oceânico sem tripulação e autónomo (autonomous): 2035
Curiosamente, num inquérito realizado ao mercado em 2017 e publicado no Allianz Risk Barometer, o erro humano, apesar de tanta tecnologia, continua a preocupar, e com tendência crescente, 22% dos inquiridos. O risco que lidera a preocupação do setor, neste mesmo estudo, consiste no desenvolvimento dos mercados, nomeadamente a sua volatilidade, flutuação e entrada de novos concorrentes, preocupando 38% dos inquiridos.

2º SINAL VITAL – BLOCKCHAIN

A blockchain é uma nova tecnologia, de “contabilidade distribuída”, que promete revolucionar o mundo que conhecemos. Alguns especialistas afirmam que o seu potencial para modificar paradigmas e processos, se equipara ao da internet quando a mesma surgiu. De forma simples, a tecnologia blockchain pode traduzir-se em descentralização, eliminação de burocracia, incremento de segurança e revolução.
A blockchain é uma base de dados distribuída (isto é, com várias cópias existentes em diferentes sistemas de computadores), que regista informações compartilhadas por uma rede ponto a ponto (peer-to-peer), usando criptografia e outras técnicas, para criar registos seguros e imutáveis de transações. Tais transações podem envolver muitos tipos de valores, como moeda (dinheiro, ações ou títulos), títulos de propriedade de ativos tangíveis (bens, propriedades ou energia) e ativos intangíveis (votos, identidade, ideias ou dados pessoais).
Espera-se que a utilização da tecnologia blockchain melhore a velocidade e reduza os custos associados aos negócios, simplificando as operações e reduzindo a necessidade de intervenção humana, automatizando processos e eliminando erros humanos, aumentando a segurança.
A primeira aplicação desta tecnologia surgiu na área financeira, com a introdução da moeda digital conhecida por Bitcoin, possibilitando um sistema distribuído de ativos e de transações confiáveis, sem a necessidade de uma autoridade reguladora central a atuar como garantia para terceiros.

3º SINAL VITAL – E-COMMERCE

A rápida expansão do comércio eletrónico é, em grande medida, permitida pela digitalização e pelo uso de plataformas eletrónicas. O mercado de comércio eletrónico expandiu significativamente ao longo da última década e continua a crescer. Entre 2011 e 2016, as entregas globais de pequenos pacotes, mais do que duplicaram, provavelmente em grande parte devido a transações de comércio eletrónico transfronteiriço.
Estas tendências têm implicações para o envio e o transporte em contentores, estando a emergir um padrão básico que aponta para a importância do transporte marítimo para o comércio eletrónico, e um aumento nos modelos de negócios que favorecem o transporte marítimo como principal meio de transporte.

4º SINAL VITAL – AMAZON Dragon Boat

Dragon Boat é pura disrupção – a operação da Amazon para eliminar os intermediários (UPS, Fedex e outros). É uma expansão para o seu serviço “Fulfillment By Amazon”, que armazena, seleciona, embala, embarca e aceita produtos, para ajudar os seus associados a expandir os seus negócios. Na verdade, uma forma da Amazon controlar toda a cadeia logística, desde o armazém, até ao cliente final, a chamada Global Supply Chain by Amazon, lançada em 2016.
A Amazon irá colocar-se no centro das indústrias de logística e distribuição, desintermediando não só os carregadores como a FedEx, UPS e DHL, mas milhares de intermediários que lidam com documentos e carga associada ao comércio transnacional. A Amazon fala de um “sistema revolucionário que automatizará toda a cadeia logística internacional e eliminará grande parte dos desperdícios associados ao manuseio de documentos e reservas de frete“.

5º SINAL VITAL – LNG

Os navios de transporte de gás natural liquefeito são o tipo de navio que apresenta a maior taxa de crescimento em tonelagem. A utilização de gás natural liquefeito como combustível encontra-se também em crescimento, aumentando a construção de navios que utilizam este combustível. Esta tendência desenvolve-se em paralelo com um contexto de maior exigência de proteção ambiental. Por exemplo, os países membros da IMO decidiram, em 2016, a utilização obrigatória de combustíveis no transporte marítimo global, com um limite máximo de 0,5% de teor de enxofre, a partir de 2020. Atualmente são permitidos combustíveis com teor de enxofre de 3,5%.
No entanto, em áreas com controlo de emissões (ECA), como por exemplo a costa norte-americana, a zona das Caraíbas, o Mar do Norte e o Mar Báltico, foram implementados em 2015 regimes ainda mais rígidos, tendo o teor de enxofre sido limitado a 0,1%. Aplicam-se também limites relativamente baixos para as emissões de óxidos de azoto (NOx) e de partículas finas, com tendência progressiva para maior limitação.
Adicionalmente, a regulamentação das emissões de gases com efeito de estufa está a conquistar o apoio do setor marítimo. Efetivamente, embora o transporte marítimo seja o meio mais eficiente em termos de emissões de gases com efeito de estufa, por tonelada e por km de transporte, estima-se que, em 2012, tenha contribuído com 2,2% das emissões globais de CO2. Segundo um estudo realizado em 2016, a indústria de transporte marítimo contribuiu também com 30% das emissões globais de NOx e 9% de SOx.
Neste contexto, as emissões podem ser reduzidas utilizando gás natural liquefeito como combustível ou, alternativamente, uma combinação de outras medidas, incluindo a utilização de combustíveis com baixo teor de enxofre, ou a instalação de catalisadores, filtros de partículas, depuradores ou a reciclagem de gases de evacuação. Porém, devido a vários fatores de mercado, incluindo económicos, regulamentares e tecnológicos, a frota de navios capazes de usar gás natural liquefeito como combustível aumentou, o que leva a crer que este combustível pode ser a opção mais eficiente em termos de custos e potencialmente reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Embora a percentagem de novas construções de navios que utilizam gás natural liquefeito como combustível (medida em toneladas brutas), tenha sido relativamente estável em cerca de 2% entre 2002 e 2013, subiu para 5,8% em 2014, 4,3% em 2015 e 5,3% em 2016. A tendência de crescimento torna-se particularmente evidente, ao considerarmos o caderno de encomendas de novos navios, verificando-se que 13,5% da arqueação bruta prevista para entrega para 2018, são navios que utilizam gás natural liquefeito como combustível.
As rotas possíveis para os navios com propulsão por gás natural liquefeito, são limitadas pelo número relativamente pequeno de portos que fornecem instalações de abastecimento deste combustível. No entanto, este número está a aumentar, particularmente ao longo das principais vias marítimas. No âmbito da União Europeia, a Diretiva 2014/94/UE sobre as infraestruturas de combustíveis alternativos, exige que todos os principais portos marítimos da Rede Transeuropeia de Transportes (RTE-T) forneçam abastecimento de gás natural liquefeito até 2025, e todos os portos interiores da rede até 2030.

6º SINAL VITAL – 3D PRINTING

A impressão tridimensional, também conhecida como fabricação aditiva, tem gerado opiniões díspares no mercado. Alguns analistas estimam que 37% das operações de transporte de contentores e os respetivos fluxos de fretes, podem ser ameaçados pela impressão tridimensional (PricewaterhouseCoopers, 2015). Outros, no entanto, questionam esta estimativa, considerando que a impressão tridimensional é destinada apenas a um nicho de mercado, por exemplo, a prototipagem, a logística de pós-venda ou de serviços, onde as peças sobressalentes devem estar disponíveis em tempo útil, ou para locais pouco acessíveis e onde as cadeias de abastecimento são incertas, especialmente em regiões de desenvolvimento remoto. Por esta razão, sustentam que esta tecnologia não terá um efeito disruptivo (Lloyd’s Loading List, 2016).

7º SINAL VITAL – CIBERATAQUES
Os ciberataques representam hoje, uma das principais ameaças à indústria de transporte marítimo. Um ciberataque já não é uma questão de “se”, mas sim de “quando”.
Utilizados para diversos fins, que podem passar pela extorsão a pessoas e organizações, alcançando o terrorismo, a ameaça de ataques por via de tecnologias informáticas é já uma realidade, tendo já ocorrido situações extremamente danosas, que implicaram prejuízos milionários. Estudos recentes, apontam para a possibilidade de ocorrência de situações ainda mais graves, tendo já sido demonstrada a possibilidade de piratas informáticos tomarem conta de navios à distância, ou de promoverem falhas nos seus sistemas de navegação, podendo conduzir a graves acidentes.
Um ciberataque a uma companhia pode implicar vários tipos de perdas, incluindo perdas de propriedade intelectual, financeiras, interrupção de operações, impacto na reputação, custos legais e custos de intervenção e de recuperação de sistemas, entre outros.
Para demonstrar a vulnerabilidade de um navio aos ciberataques, uma equipe de engenharia da empresa israelita Naval Dome, realizou uma série de ataques em sistemas de navegação, motores e outros sistemas de controlo de máquinas, em navios em operação real. Os ataques foram capazes de mudar a posição reportada do navio, induzir a indicação do radar, ligar e desativar a máquinas e anular sistemas de controlo, governo e lastro.
Em junho de 2017, a companhia Maersk foi vítima de um ciberataque, que afetou várias unidades de negócio e que obrigou a desligar vários sistemas. Posteriormente, a Maersk revelou que o ciberataque provocou a perda de 200 a 300 milhões de US$.

Conclusões

Os 7 sinais vitais do transporte marítimo aqui identificados, constituem um painel de indicadores críticos para a monitorização desta indústria. Vários outros factores tecnológicos, económicos, políticos e geo-estratégicos, têm potencial para alterar de forma significativa o seu rumo.
Esta não é claramente uma indústria para principiantes ou conservadores. Esta é uma indústria em que o amanhã foi ontem.

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