Azul, daqueles de gritar

 

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Madrugada no imenso Atlântico.
Aguarda-nos Antigua, em pleno Mar das Caraíbas, a dois dias de vontade e de distância. A manhã está dramaticamente bonita, envergonhando e fazendo chorar todos os sentidos. É tanta a natureza, tanta a imensidão, que se reconhece, ao longe, o minúsculo pedaço de tempo que somos.

Porém, o desassossego é hoje gigante. No meio de todas as tarefas e responsabilidades, luto desesperadamente por uma rotina. Um tempo para escrever, para reflectir, para celebrar o corpo, dialogar o silêncio. Lá longe, em terra, fujo da constância. Aqui, desejo-a.

Por vezes lembro e imagino o Titanic. Cruzamos o mesmo oceano, embora a uma latitude inferior. Nada de icebergs. Nem sequer avistamos outros navios. O mundo é plano e muito azul. Azul, daqueles de gritar.
Sem esforço, imagino a gigantesca profundidade do Mar e a infinita coluna de céu. Flutuo num mundo tridimensional, tranquilo. Tudo indica que estou no lugar certo. Olho, escuto, respiro por todos os poros. Atento. Sempre, como um felino acautelado.

Estou num navio de passageiros. Há vida neste planeta. Muita. Mesmo quando sem gente, os corredores ecoam passos. As cabinas pulsam e vibram ressonantes, temperadas pelo zumbido permanente das máquinas propulsoras. Há muita vida por aqui. Por vezes demasiada, assustando a privacidade.

A saudade despe-se frequentemente, despertando a emoção. Urge o regresso. A ponte constrói-se descobrindo gavetas, tocando momentos trazidos, lendo pedaços de despedida, revelando em algumas fotografias, a memória dos sorrisos. Depois faz-se caminho, relembrando a cama quente e a mesa bem posta. Por fim, celebra-se o reencontro com um quente Nespresso, calculado e armazenado em quantidade suficiente para toda a viagem. Uma máquina de café convertida em máquina do tempo. A maior obra da minha engenharia.

Regresso ao navio.
O olhar castanho tinge-se de azul.
Nos lábios palpita ainda outro coração.
As mãos soltam o perfume e acenam a despedida.
Os braços seguram a largura dos abraços. Imensa.
Como este Mar.

Azul, daqueles de gritar.

 

2 thoughts on “Azul, daqueles de gritar

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