A vida é um mistério

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Passaram por ali as quatros estações do ano numa correria.
Brilhou o sol e choveu a cântaros.
E não percebemos nada.
Percebemos tudo.

Passei seis longos meses a navegar.
Visitei mais de dez países.
Convivi com gentes de vinte nacionalidades.
Chega de contabilidade.
O regresso a casa não cabe em números, finitos ou infinitos.
A dimensão da descoberta não encontra espaço na razão.
Ainda bem.

Pois foi assim.
Juntei todas as saudades e saí do navio.
Sem pressas mas com urgência, saboreei o caminho, recuperando dos sítios a memória. Imaginei aromas e sabores, beijos, primavera, neve, cores.
Arcos e iris choveram-me completo. Lembro-os mornos e abundantes.
A vida quis-me mais nesse dia. Aproximou-se e, sem maneiras, tomou-me de abraços e levantou-me do firmamento. Perdi-me.

Tinha desenhado o plano para o reencontro perfeito. Complexamente simples.
O guião incluía o espaço de palco mas também os bastidores. Cada pedaço de tempo. Porém, venceu-me o improviso. Dei-me a caminhar em círculos, a escolher distância para saborear o tempo. Como que entregue a um delicioso gelado ou a um magnífico pudim.

Nos passos perdidos, falei que me fartei. Com todos os desconhecidos que conheci. Apeteceu-me partilhar, soltar amarras a tanta alegria, traduzir o inexplicável em palavras. Intercalei nas frases mãos agitadas e olhares gigantes.
Menino outra vez. Mais uma viagem, agora no tempo.

O táxi levou-me a casa. E levou-me também o telemóvel que lá ficou esquecido.
Nas mãos não cabia nada mais que o mundo que trazia comigo.
Cúmplice, o coração de agitado preocupou a razão e distraiu o hábito.
Poderia estar nu e não o perceberia.

As escadas não estavam lá. O elevador, não o lembro ou não o vi.
O quarto andar desceu aos meus pés. Aproveitei e subi os braços à porta.
Calmo e de peito aos saltos entreguei-lhe sonora vontade e emoção.
Bastou pouco tempo para o sol nascer e para se por no meu olhar.
Percebi no momento o universo e os porquês. Estava tudo ali.

Abati-me de joelhos.
Olhos nos olhos, a festa começou com acrobacias a palmos do chão.
Seguiram-se arriscadas coreografias caninas nem sequer imaginadas.
Afinal, ela não me tinha esquecido.
O cerco de patas e coração durou. Irresistível.
Rendi-me, grato.

Depois ergui o olhar.
Ali estava o sonho e a saudade, com toda a dimensão de mulher.
Lembro que perdi perdão ao firmamento, por o trocar por tanto céu.
O abraço chegou com vontade de beijo mas este, paciente, ofereceu a vez ao sorriso. Houve tempo. Passaram por ali as quatros estações do ano numa correria.
Brilhou o sol e choveu a cântaros.
E não percebemos nada.
Percebemos tudo.

Depois fizemos viagem. Viagens.
Pelo aMar.
Desta vez sem navio.

A seu tempo, agora juntos, chegámo-nos a outros cais.
Todos com nome de família.
Todos momentos únicos de surpresa e celebração.
Com inexplicável satisfação, aprendi de novo os sabores, os sorrisos, a amizade, a intimidade. Senti-me visitante de um planeta distante, guiado por mãos de carinho, seguro por abraços. Senti-me até um pouco não humano, abençoado por tanta luz.
Como se o sol raiasse por mim e uma estrela me guiasse os passos.
Senti-me o homem mais feliz do mundo.

Sou agora o mesmo mas diferente.
Guardo para sempre sentimentos descobertos.
Sobre humanidade. Sobre o Amor. Sobre prioridades.

Sou o mesmo mas melhor, acredito.
A vida é um mistério. Assim como a felicidade.
Para a entender um pouco, temos de ousar soltar lastro, ultrapassar limites.
Carregar menos teres e saborear mais seres.
Encontrar um propósito com nome de gente e entregar-lhe corpo e alma.
Depois, passo a passo, sorriso a sorriso, pertencer e caminhar de mão dada.
Amar.

E quando chegar de novo a hora da partida, para esse Mar gigante, saber e querer o sabor do regresso.
Muitissimo.

Mas agora não é tempo de partida.
Antes de regresso.

A vida é um mistério.
Vemo-nos por aí.
🙂

6 thoughts on “A vida é um mistério

  1. Lindo demais Álvaro……Fiquei extasiada com as palavras que li!
    Que lição de vida….Parabéns!
    Muitas e muitas Felicidades……
    Abraço,
    Paula Lage

    • Encontro nas tuas palavras emoções genuínas.
      Respondo com o coração, que a minha felicidade chega sempre pela voz de outros.
      A tua foi, neste delicioso domingo, um pedaço de céu.
      Reparto-o contigo, onde quer que estejas.
      Sê muito feliz!
      E muito obrigado!
      Abraço, Alvaro

  2. Álvaro é uma delicia ler as tuas publicações pela beleza da construção de frases, que nos fazem ao ler imaginar o sentir e ver o que viste. Poucos tem esse dom. Já pensaste em publicar?
    Fico muito feliz com a tua felicidade. Obrigada pelas partilhas que nos permitem conhecer e aprender um bocadinho mais.
    Grande abraço!

    • É sempre uma fantástica surpresa ouvir palavras bonitas sobre o que escrevo. Muito Obrigado!
      Já pensei em escrever um livro. Muitas vezes.
      E já o escrevi – a história de todas as emoções vividas e sentidas ao longo de 6 meses de viagem.
      Não se trata de um diário. Muito mais uma homenagem, a todos os que fazem do Mar, vida.
      Agora só falta encontrar uma editora.
      Mas, acredito, estou no bom caminho 🙂 Abraço Gigante!

  3. Obrigado Álvaro por tanta humanidade, é bom saber que ainda existe sensibilidade para se deixar deslumbrar por todas essas maravilhas que contemplaste. Partilho da tua acção de graças por esses dons que te vem construindo como pessoa. Espero um dia também receber esse banho de humanidade. Abraço!

    • Amigo Bruno, Fico grato pela tua partilha.
      Espero sinceramente que o mar te abra portas e te mostre, como a mim, muito mais de ti.
      E espero que possamos em breve cruzar caminhos e trocar ideias. Não esqueci a Noruega 🙂
      Abraço!

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