MarGente | O meu nome não é Felipe Ramon

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O meu nome não é Felipe Ramon. Conto a minha história de mar sob este pseudónimo, porque amo a minha privacidade. Assim como amo a liberdade.

Tenho sido marítimo toda a minha vida.
Corria o ano de 1986.
Tinha 24 anos quando subi a bordo de um navio e nunca mais larguei esta vida.
Estudei engenharia eléctrica naval e segui carreira profissional pelo mesmo caminho.

A princípio procurava aventura, queria soltar amarras, descobrir a minha razão.
O que era e o que me movia não cabia em mim. Queria perceber o sentido da dimensão, saltar fronteiras, conhecer cidades, gentes e países. Não propriamente o Mar.
Hoje, após 28 anos, tomo consciência que quatorze foram passados no seu meio.

A primeira impressão quando se entra num navio significa muito.
Percebes se ficas ou se sais.

Fiquei. E fiquei bem, umas vezes melhor, outras menos.
Pelo meio muitas viagens e muito trabalho, em navios de passageiros, carga geral, porta-contentores, petroleiros, navios químicos e rebocadores oceânicos. Os navios de passageiros cativaram-me e a eles me entreguei nos últimos cinco anos.

No princípio da minha carreira, conseguia contratos de trabalho através da agência governamental, em Cuba. Mais tarde, quando consegui obter nacionalidade espanhola, tornei-me independente e passei a procurar oportunidades com a força da minha vontade.

Gosto de estar na companhia em que trabalho. Se, por alguma razão, tiver de mudar, irei procurar novas oportunidades através de contactos pessoais e profissionais. Através da internet e por envio de CV é muito difícil. A minha documentação é cubana e o facto de ter esta nacionalidade, não me permite trabalhar em companhias americanas ou em companhias estrangeiras, com escritórios neste país. O preço que se paga por ter nascido em Cuba.

Quero trabalhar apenas em navios de passageiros. É o melhor para mim, apesar de ser um trabalho exigente, que requer muita responsabilidade e dedicação.
Os navios de passageiros dependem muito da tripulação, cumprindo calendários rigorosos e assumindo compromissos, com passageiros e com empresas externas.
Não se toleram falhas ou atrasos.

Num navio de carga ganha-se mais. Mas eu não quero trabalhar num navio de carga.
Os navios de carga são muito duros. Temos de trabalhar sozinhos.
Num navio de passageiros trabalho em equipa, o meu trabalho é valorizado e consigo ter termos de comparação de desempenho. Trabalho mais e ganho menos, mas prefiro assim.
Socializo mais, sinto-me protegido, seguro, passo mais tempo em portos e menos tempo no mar. Mais terra, melhor comunicação. Mais trabalho mas menos stress.
Aqui, a solidão mata menos.

Porém tudo depende da oferta.
Eu trabalho por dinheiro.

Aspectos positivos relacionados com o trabalho em navios?
Para mim, o mais importante, conhecer o mundo.
Depois, ganhar dinheiro, não pagar impostos e gerir eu próprio as minhas poupanças.
E, ao final, trabalhar na profissão que escolhi. Sinto-me feliz e realizado.
Sinto-me no topo. Sinto que acumulei toda a experiência que podia alcançar.
Porém continuo a estudar muito. A aprendizagem é contínua.
Aprende-se muito em navios.

Aspectos negativos?
Pois, também aqui estão e mordem.
Principalmente a ausência da família. Estar longe do lar, dos sabores da mesa e do macio do carinho.
Não estar perto da mulher, de três filhos e dois netos, não ser cúmplice das suas gargalhadas e testemunha dos seus tropeções. E quando a alguém na família, a saúde se ausenta ou o acidente acontece, sufoca não estar perto para cuidar e proteger.

Morde também o perigo da profissão. Já passei por tormentas, furacões, incêndios a bordo.
Sobrevivi até a um naufrágio. Longe, no ano de 1997, perto na memória. A meio da noite, a 80 milhas da costa no mar das caraíbas, dei por mim a nadar na direcção de uma jangada. Queria sobreviver.

Aprendi também a sobreviver, a contratos de trabalho de 9 meses.
Não deveria ser assim. Não mais de 4 meses, com intervalos de igual duração.

Felizmente existe hoje a internet. É o meu meio de ligação à família e ao mundo dos amigos. Confesso, sou dependente de internet. Passo horas online a namorar a minha mulher, partilhando imagens e emoções, acompanhando o seu trabalho, também e muito, independente. De Cuba para o mundo.
Preciso de internet, muito também por questões profissionais. Sempre que há um problema para o qual não tenho solução imediata, vou directamente à internet procurar soluções. Tudo está lá.
É imprescindível, porém de acesso demasiado caro, a bordo de muitos navios.
Sobre o tema da multiculturalidade, considero que é positivo trabalhar numa tripulação com diferentes nacionalidades. Aprende-se muito em ambientes multiculturais.
Apesar de, nos navios, a língua inglesa ser adoptada internacionalmente, é fundamental falar com as pessoas no seu idioma nativo. Aproxima, promove ligações e amplifica a confraternização.

Hoje, considero que não falo bem nenhum idioma além do espanhol, mas entendo e comunico em russo, italiano, português e inglês.
Estudei russo, no tempo do comunismo em Cuba. Não gostava e aprendi pouco. Hoje preciso de saber mais e não sei. Devia ter estado mais atento.

Existem porém, muitos aspectos negativos na multiculturalidade, especialmente o racismo, dissimulado mas presente. A diferença de culturas e a capacidade monetária, amplificam muitas vezes a discriminação de género, promovendo o assédio e até mesmo a prostituição.
Se toda a tripulação tivesse a mesma nacionalidade, muitos destes problemas não existiriam.
Seria também favorável, o aumento do número de mulheres a trabalhar em navios.

Apesar de todos os aspectos positivos, quando me perguntam se recomendaria uma carreira profissional a bordo de navios, a um filho ou um amigo, respondo não.
Categoricamente não!
E a uma filha ou amiga, ainda e muito menos!

Leio muito. Aprecio a cultura geral. Conheço a história dos marítimos desde sempre, as suas origens e as suas razões para estar no mar. Nem sempre são, ou foram as melhores.
Fui um aventureiro em jovem mas ao fim deste tempo, considero a vida do mar muito rigorosa. Começa-se bem a viagem mas ao fim de um mês no mar, o rendimento é menor. A socialização torna-se diferente. O peso da ausência da família marca pontos negativos e não se é permitido sentir a vida em todo o seu potencial.

Vives a 60%.

E quando se experienciam situações de detenção de navios ou quando estes ficam fundeados aguardando contratos, a vida a bordo torna-se ainda mas difícil, senão quase impossível.
Nem todos resistem! Com o decorrer do tempo, muitas pessoas perdem o estímulo.
O alcoolismo é ou torna-se frequente. Ouves falar de contrabando. De droga.
A transformação do ser humano. Depois e também, a lei do Mar.
Mandam o comandante e os oficiais. Nas situações mais adversas.
Os marítimos tornam-se pessoas duras. Porém e paradigmaticamente, quando em porto, não raras vezes trocam todo o seu dinheiro por afectos.

Trabalhar num navio é também perigoso. O ambiente é restrito, muitos equipamentos e manobras. Em particular, num barco de carga.
Se necessário, há que expor a existência à intempérie para resolver problemas. Em questões de segurança, depende-se dos outros e da sua atitude.
As falhas podem ser individuais mas as consequências são repartidas.

Felipe Ramon não resiste e, em jeito de confirmação da sua história e das suas conclusões, afirma:
– Os marítimos não concebem que haja uma pessoa que escreva histórias sobre o Mar e sobre as suas gentes. Tu és um tipo estranho. Os marítimos acham-te estranho. Bicho raro. Em toda a minha carreira, nunca encontrei ninguém como tu.

E eu fico a pensar no porquê da estranheza.
Porque o Mar transforma as pessoas?
Porque o Mar, de tal forma desconhecido, não convida?

Porém, quando inquirido sobre onde espera estar daqui a 5 anos, Felipe Ramón não hesita em afirmar, com transbordante orgulho e um brilho no olhar:
– Aqui, neste mesmo navio, subindo ao topo da minha carreira profissional!

Felipe Ramón não gosta de filosofar, mas não lhe falta sabedoria para partilhar.
E termina a sua história com uma recomendação a todos, principalmente aos mais jovens:
– Busca a felicidade no teu trabalho!

Subscrevo!

 

MarGente é uma iniciativa do Transporte Marítimo Global, que homenageia as mulheres e homens que trabalham no mar, a bordo de navios, prestando um serviço fundamental e de valor inquestionável para a humanidade.

Adicionalmente, promove e partilha conhecimento e experiências reais, divulgando o trabalho que se realiza a bordo de navios, informando os que olham o mar como uma oportunidade profissional.

Porque o Mar é um sector “emargente”, de elevado potencial de crescimento, uma opção a considerar para jovens e para todos os que eventualmente procurem uma transição profissional.

 

 

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