Um dia em Riga

Riga

O Mar volta a surpreender.
Assim queiramos nós escutar as suas histórias.
Ou fazer parte delas.

Hoje foi assim.
O dia amanheceu brilhante e poderoso, atravessando anteparas e conveses.
Olhei pela vigia e choquei com a passagem de um gigante e azul porta-contentores.
Majestoso e, claro, Maersk.
Deu-me vontade. Apesar de estar num navio, apeteceu-me estar naquele outro.
Conhecer outra realidade, outras histórias, outros mares.

Madrugada. Estamos em período de manobras, à entrada da belíssima cidade de Riga, na Letónia, a meio caminho de fantástica S. Petersburgo. A viagem promete e a energia chega apressada, para iniciar um novo e surpreendente dia.

Pequeno-almoço frugal e apetitoso. Nada de peso em excesso. Muitas escadas pedem passos ligeiros. As pernas não têm trabalho facilitado. Para equilibrar os esforços, há que começar o dia com treino físico global, não exagerado. Sinto-me bem!

Primeira missão – verificar a qualidade da água potável. Num navio de passageiros, este sistema assume fundamental relevância, exigindo particular responsabilidade e permanente optimização. O sistema é complexo e extenso, incluindo tanques de armazenamento, produção de água doce a partir de água do mar (osmose inversa e evaporação destilação) e distribuição de água quente e de água fria a todos os consumidores, incluindo passageiros e tripulação. Por fim e igualmente relevante, o sistema de desinfecção por doseamento de cloro, o sistema de esterilização por ultravioletas e a manutenção do rigoroso equilíbrio de pH. A estabilidade do sistema fica assegurada, através da adequada parametrização do sistema de automação e controlo.

Verificada a boa produção, é tempo de subir à ponte do navio, cumprimentar a eficaz e simpática equipa de navegação e verificar a água no ponto mais distante do circuito. Sistema de controlo a funcionar na perfeição. Missão cumprida. Começa bem o dia!

Tempo de estudo e investigação. Hora de conhecer mais um equipamento ou sistema, questionar e descobrir o navio, um pouco mais e melhor. Não faltam convites para bons desafios que, por cortesia, curiosidade e conhecimento, nunca se recusam. No final, a saborosa sensação de integração e de proximidade, de aprendizagem e de desenvolvimento. A equipa torna-se ainda mais equipa. Os dias tornam-se ainda mais gratificantes, com a cotação de confiança a prometer fechar o dia em alta.

Novo desafio. Início do serviço de quarto à máquina às 12h00, com final previsto às 16h00. A equipa é excelente, coesa e não faltam boas competências. A mesma equipa que se junta nas visitas às cidades por onde passamos e onde celebramos a amizade e a descoberta.

Serviço é serviço. Os desafios são constantes e toda a atenção é requisitada. Criam-se laços com as pessoas mas também com os equipamentos.
A cumplicidade espreita a cada momento, a tal ponto de nos sentirmos uma espécie de bio-máquina, o centro nervoso de todo o meio que nos rodeia.
Uma sensação única e poderosa que se conquista um pouco todos os dias.

Hora de verificar sistemas e preparar as senhoras Wartsilas, duas encorpadas máquinas de propulsão, que gostam de viagem e de acção. Suficiente ar de arranque, combustível disponível e nos parâmetros, lubrificação garantida e circuitos de água a bem fluir.
Tudo corre bem. Recompensa pelo cumprimento estrito das regras de segurança e de manutenção. E por se saber o que se faz. Perante equipamentos de tal dimensão e potência, a eventual falta de conhecimento pode tornar-se muito perigosa.
Não é o caso neste navio e muito menos nesta equipa.

O dia segue. Termina o serviço de quarto e passa-se informação à nova equipa.
Documenta-se cada detalhe e tempo. Nada pertence ao espontâneo. Os processos são claros e rigorosos. Disciplina representa boa comunicação e eficaz segurança.

Intervalo de lazer até à hora de jantar. Há que descansar o corpo e levar a mente a outras paisagens, subir ao convés e alongar os sentidos e os sentimentos. O Mar está, de novo, diferente. É sempre uma emoção renovada procurar o horizonte, celebrar o dia relembrando momentos e saudosas origens. Fundamental.
Ou sair e descobrir a cidade ali mesmo ao lado. Há tempo para tudo.

Um pouco mais tarde, juntam-se emoções e internet e escreve-se amor e amizade. Carinhos para a família e para os amigos.
Nunca estamos sós. Não existe partida e regresso. Estamos sempre ligados.
De uma forma ou de outra. Não se desliga a vida apenas porque se está num navio. Pelo contrário, celebra-se intensa e profundamente.
E a noite ainda nem começou!

O Mar volta a surpreender.

Assim queiramos nós escutar as suas boa histórias.
Ou melhor, fazer parte delas.

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