O Elemento Humano no Transporte Marítimo

ISM_Acidente Navio

Em 2010, a indústria de Transporte Marítimo Global perdeu dois navios por dia, tendo o comportamento humano sido a principal razão.
Mas o comportamento humano foi também a razão pela qual a perda não foi maior.

The Human Element, publicado pelos psicólogos organizacionais Dik Gregory e Paul Shanahan, realiza uma abordagem profunda aos factores críticos relacionados com o ser humano, incluindo o senso comum, percepção de risco, tomada de decisões, ocorrência de erros, fadiga e stress, aprendizagem e desenvolvimento, trabalho em equipa e comunicação.

As análises e conclusões que se apresentam de seguida, fazem parte desta publicação, apenas no tema dedicado à ocorrência de erros, dando uma ideia da qualidade e conteúdo da mesma.

O elemento humano
A indústria de Transporte Marítimo é gerida por pessoas, para as pessoas. Pessoas que projectam navios, que os constroem, que os possuem, que são tripulação, que fazem a sua manutenção, que os reparam e resgatam. Pessoas que os comandam, examinam, garantem e investigam quando algo corre menos bem.
Mas os seres humanos não são simplesmente um elemento, como o tempo. Os seres humanos estão no centro da navegação marítima, sendo o segredo dos sucessos e as vítimas dos fracassos. É a natureza humana que impulsiona o que acontece todos os dias no trabalho – desde as tarefas de rotina de classificação do navio, até ao direito marítimo e às decisões de políticas marítimas da IMO.

Os factos
• Em 1997, um P&I Club (Protection & Indemnity) informou que o erro humano dominou as causas subjacentes das principais reclamações, tendo sido responsável por 58% das mesmas, um número que não mudou em dez anos. No mesmo período, a outra causa principal – falha do navio – diminuiu 67%;
• De 2000 a 2005, por dia em média, 18 navios colidiram, encalharam, afundaram, incendiaram-se ou explodiram. Incrivelmente, dois navios afundaram todos os dias;
• No período de 15 anos até 2008, a International Union of Marine Insurance (IUMI) relatou que a média do número de incidentes envolvendo a perda grave ou total de navios, com arqueação bruta superior a 500 GT, tinha vindo a aumentar. 60% dos mesmos tiveram origem em erro humano;
•  O custo de aquisição de um navio novo representa um investimento de US$ 50 milhões para um navio de carga geral e US$ 250 milhões para um navio-tanque de GNL totalmente equipado. Em 2009, os custos de renovação para o Grupo Internacional de P&I Clubs aumentaram em média 16,5%;
• Em 2008, 135 embarcações de arqueação bruta igual ou superior a 100 GT foram perdidas – quase três por semana – o que representa quase meio milhão de toneladas (GT). Destas perdas, 41 foram classificadas como desastres marítimos. Estes 41 desastres marítimos – quase um por semana – incluíram cinco navios de carga e 32 navios de passageiros;
• Em 2008, cerca de 150 pessoas perderam a vida em navios de carga geral, número que pouco mudou nos seis anos anteriores. Fontes: Swiss Re (2009), Lloyds Register (2008) e Bailey (2007).

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Factores individuais que potenciam os erros
• Repouso insuficiente ou altos níveis de stress
Reduzem a atenção e concentração, e aumentam os tempos de resposta.
• Insuficiente formação e experiência
A formação deficiente e a falta de experiência podem resultar na tentativa de fazer tarefas com conhecimento insuficiente (‘pouco conhecimento é uma coisa perigosa’), ou conduzir ao fracasso no combate a uma situação perigosa em desenvolvimento. A falta de investimento em formação e desenvolvimento de experiência estruturada, também contribuem para uma deficiente cultura de segurança, enviando fortes sinais para a força de trabalho, de que a mesma não é valorizada.
• Comunicação inadequada
A comunicação bem sucedida não é simplesmente uma questão de transmitir mensagens de forma clara. Implica empatia por parte do mensageiro para garantir a disponibilidade do ouvinte para ouvir, e escuta activa por parte do ouvinte. Grande parte da comunicação, depende da capacidade de ambas as partes fazerem sentido na situação que partilham.

Factores organizacionais que potenciam os erros
• Tempo insuficiente
Se não houver tempo suficiente para fazer tudo, o ser humano procura maneiras de ser mais eficiente em detrimento do rigor. Também se torna propenso a assumir elevados níveis de carga de trabalho, o que aumenta os níveis de stress e acelera a fadiga.
• Concepção inadequada
A má concepção de equipamentos, controlos e interfaces ou processos, aumenta a carga de trabalho, tempos de resposta, fadiga e níveis de stress. Também pode promover a invenção e a utilização de perigosos atalhos.
• Equipa insuficiente
Se o número de pessoas disponíveis para realizar uma tarefa é inferior ao necessário, a carga de trabalho, fadiga, níveis de stress e doença aumentam, são tomadas decisões de recurso e a cultura de segurança é comprometida pela desmotivação, baixa moral e absentismo. A eficiência da gestão (na forma de cortes de pessoal) muitas vezes resulta em eficiências que provocam insegurança no trabalho, uma diminuição no rigor e um aumento no número de erros – tudo agravado devido ao menor número de pessoas que têm menos tempo para evitar que os erros se transformem em algo pior.
• Cultura de segurança inadequada
A fonte mais influente de uma boa cultura de segurança, é a seriedade com que a alta administração encara a mesma, através da formação, do investimento pessoal e da implementação de processos de trabalho, que incorporam o tempo que as práticas de segurança exigem. Os erros da força de trabalho aumentam, não apenas por causa da ausência desse investimento, mas também devido ao significado que as pessoas atribuem, à ausência de investimento por parte da sua administração.

Não é só erro humano
Tem havido uma grande quantidade de pesquisas sobre o erro humano e acidentes catastróficos em vários sectores de segurança crítica, além do marítimo (por exemplo, nuclear, aéreo, rodoviário, ferroviário, defesa). Uma conclusão universal, é que são as combinações de várias circunstâncias adversas, que criam resultados desastrosos. O problema, mais do que erro humano, reside nas condições existentes e na história da organização em que o mesmo ocorre.

Os Ciclos Viciosos
Muitas decisões apresentam vantagens e desvantagens, criando algumas relações que constituem ciclos viciosos. Por exemplo:
• Formação
O investimento na formação pode diminuir a assunção de riscos, a carga de trabalho, a fadiga e o stress, com impacto positivo na redução do número de incidentes. Mas, sem um esquema eficaz de verificação de competências, pode também incentivar a promoção mais rápida de Oficiais, resultando na diminuição das competências da tripulação através da experiência insuficiente.
• Automação
O investimento em automação pode conduzir a operações mais eficientes. Mas, sem um aumento no investimento em formação, pode também aumentar o risco e levar a níveis de lotação menos seguros, através da aparente necessidade de menos tripulação.
• Regulamentação
O aumento de regras, regulamentos, normas e códigos decorrentes da resposta a incidentes, enfatizam o papel das autoridades reguladoras e aumentam a pressão sobre os armadores, para melhorar a qualidade mensurável das suas operações. Mas, por sua vez, pode aumentar a necessidade de conformidade, os custos da empresa, a aceitação de riscos (através da busca de eficiência de compensação), a carga de trabalho, a fadiga e o stress.
• Condições de trabalho
O investimento em melhores condições de trabalho, condições sociais e de vida, pode ser alcançado através da concepção de melhores navios e níveis de lotação mais seguros. Também poderia ajudar a atrair candidatos de elevado potencial, aumentando a qualidade dos Marítimos e diminuindo a exposição das empresas a problemas de tomadas de risco, a carga de trabalho, fadiga e stress e, assim, evitando incidentes dispendiosos. No entanto, a pressão financeira sobre as empresas para se tornarem mais limpas e mais eficientes pode, mais uma vez, piorar a vida dos Marítimos e as condições de trabalho, aumentando a tomada de riscos, a carga de trabalho, a fadiga e o stress da tripulação.

Citações

“People usually break rules to make work more efficient.”

“It takes 10 years to become an expert – and there are no short-cuts.”

“People make mistakes. Organisations make it possible for them to be really serious.”

“It is widely reported that human error continues to be responsible for most maritime and offshore casualties.”

“Problems arise when the goals of people in the same organisation start to diverge.”

“Automation creates new human weaknesses … and amplifies existing ones.”
Lützhöft & Dekker (2002)

“Stories of people underestimating risk are legion.”

“24 hours without sleep has the same effect on performance as being 25% over the UK drink-drive limit.”
Australian Government (2000)

Não perca esta informação de qualidade.

Aceda à publicação em The Human Element

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