Transporte Marítimo: a indústria secreta crucial para a nossa existência

Deep Sea_Rose GeorgeO mundo do transporte marítimo é crucial para a nossa existência quotidiana, mas poucas pessoas têm ideia do que acontece em alto-mar.

Rose George, jornalista e autora britânica, publica um livro fascinante de nome “Deep Sea and Foreign Going: Inside Shipping, the Invisible Industry that Brings You 90% of Everything”, onde mergulha profundamente dentro da indústria do transporte marítimo global, abordando a mesma de forma transversal e transparente.

Efectivamente, mais de 100.000 navios transportam actualmente 90% do comércio mundial e empregam 1.5 milhões de marítimos, constituindo um pilar fundamental da civilização que conhecemos.

Para melhor documentar o livro, Rose George embarcou no navio porta-contentores Maersk Kendal, um navio com 299 metros de comprimento por 40 de largura, com capacidade para transportar 84.771 toneladas e 6188 contentores, numa viagem de Felixstowe para Singapura, durante cinco semanas e 9.288 milhas náuticas.

Rose constata que existe um enorme silêncio e falta de informação sobre a importância do transporte marítimo, o que alguns classificam como “sea blindness”. Ironicamente, quanto mais os navios crescem em dimensões e importância, menos espaço ocupam na nossa imaginação.
No entanto o comércio por mar cresceu 4 vezes desde 1970 e continua a crescer. Existem mais de 100 mil navios no mar, transportando todos os sólidos, líquidos e gases que precisamos para viver. Apenas 6.000 são navios porta-contentores, como o Maersk Kendal, mas compensam essa pequena proporção pela sua capacidade estonteante de carga. O maior navio porta-contentores pode transportar 18 mil unidades. Pode armazenar 746 milhões de bananas, uma para todos os europeus, apenas num navio. Se, apenas os contentores da companhia dinamarquesa Maersk, fossem alinhados em fila, iriam criar uma linha com 11.000 milhas, mais de meio caminho em redor do planeta. Se fossem empilhados, teriam 1.500 milhas de altura, 7.530 Torres Eiffel. Se o Maersk Kendal descarregasse toda a sua carga em camiões, a linha de tráfego teria 60 quilómetros de comprimento.

Maersk_Kendal

Podemos perceber a transformação que se registou na visibilidade do transporte marítimo, analisando as páginas dos grandes jornais. Há 50 anos atrás, a informação de transporte marítimo era notícia, com o registo diário de partidas de carga. Hoje, o negócio mais necessário no planeta, tem sido quase sempre desviado para as páginas de publicações comerciais especializadas. Porém a sua importância não se pode descurar.

Vejamos o caso da MAERSK. É a Coca-Cola do transporte marítimo mas sem nenhuma da sua fama. A empresa que a controla, a AP Moller-Maersk, opera 600 navios e é a maior empresa na Dinamarca, com vendas iguais a 20 por cento do PIB da Dinamarca; os seus navios usam mais combustível que a nação inteira. Onde se vê esta notícia?

20 milhões de contentores atravessam o mundo neste momento. Antes dos contentores, os custos de transporte consumiam 25% do valor da mercadoria enviada. Hoje, com as eficiências extremas obtidas pela intermodalidade, os custos foram reduzidos a uma ninharia. Uma camisola pode agora viajar 3.000 milhas por 2,5 cêntimos de dólar, uma lata de cerveja por 1 cêntimo. O transporte marítimo é tão barato, que faz mais sentido financeiro enviar o bacalhau escocês para a China, a 10.000 milhas, para ser processado.

E finalmente, mas nada menos importante, os marítimos. Afirma Rose, que a vida no Mar é extremamente regulada mas que o mar “dissolve” papel. O que tem consequências negativas para os marítimos, que lidam muitas vezes com dificuldades acrescidas e alarmantes e deficientes condições de trabalho. Impera muitas vezes o espírito do mar-alto, terra de ninguém onde quem tem o poder absoluto é o comandante do navio.

Dois terços dos marítimos não têm acesso a Internet. Rose menciona que existe uma frase célebre entre os marítimos, que afirma que trabalhar no mar é como estar preso mas a ganhar um salário. Sublinha porém que não é totalmente verdade. Em alguns casos de navios e armadores menos escrupulosos, a prisão tem melhores condições.

E quando falamos de registo de navios, bandeiras de conveniência ou registos abertos, como se queira chamar, falamos, afirma, de uma anarquia gerida e organizada.

Publicação de leitura obrigatória – http://rosegeorge.com/site/about

Notícia recente na imprensa – Jornal The Telegraph 6 Setembro